180
anos de samba cantando Adoniran & Noel
Vesper Vocal - MPB4 - Luiz Tatit - Roberto Silva
Muitos
fatos os ligam, além do ano de 1910, quando nascem:
Adoniran em agosto e Noel em dezembro. Mas com certeza,
o grande encontro dos dois se dá na arte que
escolhem para cantar sua época e suas cidades,
seus lugares preferidos e tipos populares, e falar de
si próprios: o samba, o moderno samba urbano
recentemente desgarrado de suas origens amaxixadas.
Agora, com a síncope mais leve, se presta para
os meneios maliciosos da festa popular como o carnaval,
bem como narrar de modo mais faceiro, às vezes
sarcástico e debochado, o cotidiano das pessoas,
seus amores e frustrações, a boemia e
a malandragem. Os dois vivem um momento importante da
vida nacional quando o país assiste ao fim da
República Café com Leite das velhas oligarquias
e ao começo de um novo modelo de sociedade urbano-industrial.
Este é o contexto donde aflora a arte de ambos.
Noel começa a compor em 1929, criando logo um
sucesso: o samba Com que Roupa. Adoniran em 1933, quando
o destino marca mais um encontro entre os dois. Por
várias vezes, o novato João Rubinato tenta
a carreira de cantor, se apresentando no famoso Programa
de Calouros de Paraguaçu (Roque Ricciardi), na
rádio Cruzeiro do Sul. A primeira tentativa se
dá com o grande sucesso do carnaval de 1931,
Se você Jurar de Ismael Silva e Nilton Bastos,
dois grandes sambistas do Estácio de Sá,
geração responsável por ter liberado
o samba da herança do maxixe. Queixando-se a
seu grande amigo de boemia Adoniran Alves, o próprio
João Rubinato, cuja voz era apreciada por alguns
amigos (dizia-se que se inspirava no seu grande ídolo,
o sambista carioca Luís Barbosa, aquele do chapéu
de palha percussivo), atribui ao nome de origem italiana,
a causa do seu insucesso. No final do mesmo ano de 1933,
a carreira começa a deslanchar quando vence o
programa de Paraguaçu, interpretando Filosofia
do carioca Noel Rosa. Nesse momento nasce Adoniran Barbosa
Noel e Adoniran estão também unidos por
um parceiro comum: Hervê Cordovil. Com ele, Noel
compõe Triste Cuíca e Adoniran Prova de
Carinho. Diz-se que a poética das canções
de Noel é quase sempre um amar debochado ou gaiato,
como o do Pierrô e do Gago Apaixonado. Se for
verdade, poderíamos ver afinidades no amor sarcástico
e tragi-cômico de Adoniran, como o do Tiro ao
Álvaro, Iracema, Já fui uma Brasa. Se
os dois se encontram na identidade de uma poética
sarcástica ou gaiata, existe por outro lado uma
identidade no insólito em suas obras, que os
distingue em canções de puro lirismo como
a belíssima letra de Queixumes para a melodia
de Henrique Brito, companheiro de Noel do Bando dos
Tangarás, e a melodia de Bom dia, Tristeza que
se integra num todo de rara beleza com a letra de Vinicius
de Moraes. Outro elo de identidade na poética
e sensibilidade dos dois: Noel e Adoniran souberam cantar
como ninguém, suas cidades - Rio e S. Paulo.
e seus lugares amados. Noel nomeia diretamente esses
lugares, como a Vila Isabel e a Lapa. Adoniran os canta
através dos tipos urbanos que constrói,
como Mato Grosso e Arnesto.
Estas são as razões que justificam fortemente
a celebração que o SESC faz do nascimento
de dois dos maiores sambistas de todos os tempos. Mais
do que uma simples coincidência de datas, os dois,
irmanados num destino comum, podem ser representados,
em nossa fantasia, por um lugar imaginário de
boemia que freqüentavam, em cidades e momentos
distintos, fundido num mesmo espaço-cenário
– a Lapa de Noel e o Bexiga de Adoniran.
Em 180 Anos de Samba participam artistas paulistas e
cariocas: dois grupos vocais, Vésper e MPB4 ,
e dois cantores, Roberto Silva e Luiz Tatit. Formações
e estilos diferentes identificados numa mesma intenção:
celebrar nossa arte maior – o samba e dois de
seus maiores inventores: Noel e Adoniran.
Direção musical: Paulo
Bellinati e Mônica Thiele
Músicos:
Piano: Benjamim Taubkin
Sax e clarinete: Proveta
Violão: Edmilson Cappelupi
Percussão: Guello e Osvaldinho
da Cuíca
Violão: Paulo Bellinati
Cello: Adriana Holtz
O
espetáculo contou ainda com a narração
em cena de Dilmar Miranda, com intervenções
pontuais, condensando informações sobre
a obra dos dois artistas e sua época.
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